En esta sección se reproducen poemas en sus diferentes formatos y soportes. Se trata de un archivo de textos, voces, videos, performances.

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Mattoso, Glauco

Glauco Mattoso, nascido Pedro José Ferreira da Silva, em São Paulo, 1951, estreia para a poesia nos anos 1970, especificamente em 1977, com o Jornal Dobrabil, espécie de boletim satírico que não apenas dialogava com a “geração mimeógrafo” dos anos 1970 como também com a prática dos fanzines[1], então em ascensão no Brasil. O fato de que seus livros, para além do Jornal, fossem impressos em pequenas tiragens, ou seja, que circulassem de maneira restrita entre um pequeno grupo de pessoas, acabou por criar uma espécie de mito em torno do autor, cuja figura se tornou muito conhecida, ao passo em que sua poesia era pouco lida. Nos anos 1980, a partir da publicação de livros como o Manual do podólatra amador: aventuras e leituras de um tarado por pés, em que lia, entre outros, A pata da gazela de José de Alencar em chave sadomasoquista e fetichista, cresceu ainda mais a fama de poeta maldito, escatológico e da crueldade. Em 1982, Cacaso escrevia sobre o poeta na revista Leia Livros e, em 1984, Caetano Veloso o mencionava na música “Língua”. Dessa forma, o nome do poeta ia ganhando cada vez mais projeção, enquanto a poesia seguia restrita ao pequeno círculo de leitores que o liam desde as pequenas tiragens impressas e autofinanciadas pelo autor.

Nos anos 1990, com o avanço do glaucoma e a cegueira total, o poeta passa por um período de anos sem publicações; mas, a partir de 2000, com a compra de um computador adaptado para cegos, cuja aquisição tornou-se possível por conta de um prêmio literário que venceu, o Jabuti, na categoria tradução, ao traduzir, justamente, o primeiro livro de poemas de outro cego, Jorge Luis Borges, cujo Fervor de Buenos Aires marcava o início da publicação das obras completas do argentino pela editora Globo, Glauco volta a produzir intensamente. A edição de Poesia digesta: 1974-2004, primeira antologia que reúne textos do poeta, mostra uma poética que, de acordo com Stephen Butterman, deve ser lida como transgressora mesmo a partir do prisma da transgressão[2], bem como surge para firmar Glauco Mattoso definitivamente no cânone poético contemporâneo brasileiro, e no cânone de nossa poesia erótica em todos os tempos. Poesia erótica que, de acordo com José Paulo Paes, seria um veio subterrâneo da poesia ocidental, raras vezes vindo à luz, não obstante, nunca tendo deixado de existir[3].

No caso de Glauco, entretanto, não se trata de poesia erótica que fale o corpo, senão que fale os limites do corpo, os limites da imaginação: como bom leitor de Sade, o poeta parece ter apreendido do autor de Os 120 dias de Sodoma o sentimento de que a literatura tem, antes de mais nada, o dever de dizer tudo. E não se trata de surrealismos ou apropriações, mas sim, de uma antropofagia que transcende como coprofagia, ou seja, a ingestão de fezes, e que marca no seio da contemporaneidade o poder da transgressão. Isso, aliado ao uso da forma soneto – nada mais canônico, em termos de poesia, no Ocidente –, gera um estranhamento que, não raro, faz alguns leitores fecharem seus livros para não mais abri-los.

Glauco Mattoso publicou, entre outros, Poesia digesta: 1974-2004, Manual do podólatra amador: aventuras e leituras de um tarado por pés, A planta da donzela, O que é tortura?, Poesia vaginal: cem sonetos sacanas e O que é poesia marginal? e um Manual de metrificação. Além disso, em 2001 a editora Iluminuras reuniu, em volume único fac-similar, todas as edições do Jornal Dobrabil.

[1] Tipo de texto geralmente montado com imagens, fotos de revistas, emulando as histórias em quadrinhos e contendo poemas, textos políticos ou qualquer outro tipo de mensagem que o autor desejasse transmitir. Os textos eram fotocopiados e vendidos ou distribuídos nos sinais de trânsito, cinemas, casas de espetáculos e shows de música.

[2] Cf. BUTTERMAN, Steven. Perversions on parade. San Diego: Sand Diego University Press, 2005.

[3] CF PAES, José Paulo (Org.). Poesia erótica em tradução. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

 

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Manifesto Obsoneto (soneto 8)
Año: 2012
Duración: 0.45’’

“Isso não é poesia que se escreva, / É pornografia tipo Adão & Eva: / Essa nunca passa, por mais que se atreva, / Do que o Adão dá e do que a Eva leva. / Quero a poesia muito mais lasciva, / Com chulé na língua, suor na saliva, / Porra no pingarro, mijo na gengiva, / Pinto em ponto morto, xota em carne viva! // Ranho, chico, cera era o que faltava! / Sebo é na lambida, rabo não se lava! / Viva a sunga suja, fora a meia nova! // Pelo pelo na boca, jiló com uva! / Merda na piroca cai como uma luva! / Cago de pau duro! Nojo? Uma ova!”

Mattoso, Glauco. Poesia digesta (1974-2004). São Paulo: Landy Editora, 2004. (Coleção Alguidar)

 

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Manifesto Coprophagico (soneto 6)
Año: 2012
Duración: 0.51’’

 “a merda na latrina/ daquele bar de esquina/ tem cheiro de batina/ de botina/ de rotina/ de oficina gasolina sabatina/ e serpentina/ bosta com vitamina/ cocô com cocaína/ merda de mordomia de propina/ de hemorróida e purpurina/ merda de gente fina/ da rua franciscamiquelina/ da vila leopoldina/ de Teresina de santa Catarina/ e da argentina/ merda comunitária cosmopolita e/ clandestina/ merda métrica palindrômica/ alexandrina/ ó merda com teu mar de urina/ com teu céu de fedentina/ tu és meu continente terra fecunda/ onde germina/ minha independência minha/ “indisciplina”/ és avessa foste cagada da vagina/ da américa latina”

Mattoso, Glauco.  Poesia digesta (1974-2004). São Paulo: Landy Editora, 2004. (Coleção Alguidar)

 

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Soneto boceteiro (soneto 309)
Año: 2012
Duración: 0.50’’

“Pequenos, grandes lábios, um clitóris./ Pentelhos. Secreção. Quentura molle,/ que envolve o meu caralho e que o engole./ Não saio até gozar, nem que me implores.// Diana. Dinorath. Das Dores. Doris./ Aranha. Taturana. Ovelha Dolly./ Pelluda, cabelluda, ella nos bolle/ na rola, das pequenas às maiores.// Boceta existe só para aguçar/ a fome dos caralhos em jejum./ Queremos bedelhar, fuçar, buçar!// Agora não me fallem do bumbum!/ Do pé tampouco! Vou despucellar/ o buço dum cabaço, acto incommum.”

Mattoso, Glauco. Poesia vaginal: cem sonnettos sacanas. São Paulo: Hedra, 2015.

 

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Sado repisado (soneto 3444)
Año: 2012
Duración: 0.40’’

“Dum pé sádico o formato/ de explanar jamais me enfado./ Nunca é cavo: é longo e chato,/ vãos nos dedos, ‘expalhado’./ Sim, de facto, um ‘pé de pato’,/ ‘bicco largo’ no calçado./ Esse é o thema de que eu tracto/ si me humilho e me degrado./ Bem mais curto é o ‘pollegar’,/ si a medil-o alguem chegar,/ do que o dedo ‘indicador’./ Eis o molde a que, em sonnetto,/ sob a sola me submetto,/ seja a ‘prancha’ de quem for.”

Mattoso, Glauco. Callo à Bocca. São Paulo: Lumme, 2010.

 

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Bellico (soneto 273)
Año: 2012
Duración: 0.47’’

“As armas, munições, armazenadas/ são muitas vezes mais suficientes/ para extinguir da Terra seus viventes,/ e continuam sendo fabricadas.// Revólveres, canhões, fuzis, granadas,/ torpedos, mísseis mis, bombas potentes,/ festim, balas Dum Dum, cartuchos, pentes,/ martelos, foices, paus, facões, enxadas.// Romanos, que eram bons de guerra e paz,/ disseram: ‘Si vis pacem, para bellum.’:/ Parece que os modernos vão atrás.// Não quero exagerar no paralelo,/ mas quanto menos ronda a bota faz,/ mais folga ostentará o pé de chinelo.”

Mattoso, Glauco. Poesia digesta: (1974-2004). São Paulo: Landy Editora, 2004. (Coleção Alguidar)

 

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Filme para Poeta Cego (Film for Blind Poet) 
Año: 2012
Duración: 26’ 03’’

Direção: Gustavo Vinagre
Direção de Fotografia: Thais Taverna
Produção: Preta Portê
Câmera adicional: Fábio Bardella
Som: Ivan Russo
Montagem: Rodrigo Carneiro

 

Presentación y curaduría de la entrada Mattoso, Glauco: Diego Moreira

Fecha de actualización 10/ 02/ 2019