En esta sección se reproducen poemas en sus diferentes formatos y soportes. Se trata de un archivo de textos, voces, videos, performances.

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Poesía cantada: Brasil

Poesia cantada escrita: encartes de álbum

É datado da virada de 1969 pra 1970 o artigo de Augusto de Campos “Música popular de vanguarda” no qual o poeta ressalta a excelência das produções do tropicalismo, com especial ênfase para as canções de Caetano Veloso e Gilberto Gil, jovens compositores que já vinha defendendo em artigos publicados no jornal desde 1967. Segundo Augusto, em uma afirmativa especialmente interessante para um poeta conhecido pelo seu forte engajamento no concretismo e por um investimento visual-pictorgráfico na poesia, “Gil e Caetano reabilitaram um gênero meio morto: a poesia cantada”.

Augusto chama a atenção para a poesia cantada – e diz que uma letra como “Batmacumba”, de Gilberto Gil, revelaria suas influências concretistas se fosse escrita – porque seu texto se situa num momento-chave: o início do investimento da indústria fonográfica nos encartes de álbum. Se até os anos 60 os encartes traziam apenas a ficha técnica dos discos, é durante as décadas de 60 e 70 que eles se convertem em objetos visuais cada vez mais trabalhados, e passam incorporar, via de regra, as letras escritas das canções. A mesma época que foi marcada, portanto, pelo crescimento exponencial do mercado fonográfico (especialmente no Brasil), produziu, através de um refinamento do suporte material da embalagem dos LPs, um espaço gráfico que possibilitou um forte intercâmbio entre a poesia cantada (esse gênero meio morto) e a poesia escrita e/ou visual.

Diversos exemplos icônicos parecem trazer diferentes implicações para essa encruzilhada de linguagens e suportes, desde o famoso “Discobjeto”, o Transa (1974) de Caetano Veloso – cuja capa, dobrável, se convertia em um objeto triangular tridimensional – até o livro-glossário que acompanha Na quadrada das águas perdidas (1979) de Elomar Figueira Mello. Nossos exemplos, porém, se restringirão a três canções-poemas de três discos dos anos 70 que parecem tensionar de maneiras distintas os diferentes recursos da canção e da poesia escrita, ou, talvez, da poesia-cantada-escrita. Caberia ressaltar ainda que o legado desse intercâmbio se estende nos anos 80 – marcadamente em obras como as de Walter Franco e Arnaldo Antunes – e começa a decair, sintomaticamente, no final da década, quando a migração de mídia para os CDs reduziu os 32 x 32 cm do encarte dos LPs para quase um terço disso, diminuindo o apelo visual e, progressivamente, a importância desse espaço.

 

Tom Zé – Todos os olhos

Quarto álbum do baiano tropicalista Tom Zé, Todos os olhos (1973) é talvez o exemplo mais marcante do intercâmbio entre o concretismo e a canção. Com o conceito da arte de capa de Décio Pignatari e capa interna constituída inteiramente por um poema visual de Augusto de Campos, “Olho por olho”, de 1964, Todos os olhos traz não apenas a influência, mas também a assinatura de dois dos mais importantes poetas do concretismo. Augusto assina também, em parceria com Tom Zé, “Cademar”, uma participação que o próprio Augusto diz ser não a de um “letrista” mas de um “cortador de letras”: é Augusto que sugere o corte que produz, visualmente, na versão escrita do poema a pausa e mudança fonética que ouvimos cantada em seu formato fonográfico.

 “Olho por olho” de Augusto de Campos, na capa interna de Todos os olhos

 

Tom Zé y Augusto de Campos
"Cademar"
Álbum:
Todos os olhos
Año: 1973
Duración:
0:45"


João Bosco – Caça à raposa

Caça à raposa (1975) é o segundo álbum da carreira do mineiro João Bosco, e segundo de sua parceria com o letrista carioca Aldir Blanc. João e Aldir se situam no que foi formulado como uma “segunda onda” da MPB, juntamente com figuras que tem seus primeiros álbuns lançados no início dos anos 70, num momento em que as figuras que ficaram marcadas pelo circuito dos festivais da canção (como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Edu Lobo e Geraldo Vandré) já possuíam carreiras consolidadas.

O trabalho com a versão escrita das letras já pode ser lido desde uma canção como “Quilombo”, do primeiro álbum da dupla, João Bosco (1973), mas se torna particularmente interessante em “Nas escadas da penha (por dentro do crime)”. Aqui encontramos (ainda que não em termos tão visuais-concretistas) uma mudança pungente de sentido conforme a estrutura sintática e a pontuação, no segundo momento da letra, rearranjam os objetos dos verbos iniciais de cada verso: “matou o amigo de ala” se torna “matou o ciúme que mata”. É interessante o fato de que essa mudança é imperceptível na versão cantada, na qual a segunda parte da letra figura como uma repetição espelhada da primeira.

 

João Bosco e Aldir Blanc
"Escadas de Penha"
Álbum:
 Caça à raposa
Año:
1975
Duración:
2'48''



Escadas da Penha
(por dentro do crime)

Nas escadas da Penha penou
No cotoco de vela velou
A doideira da chama chamou
O seu anjo-de-guarda guardou
O remorso num canto cantou
A mentira da nega negou
O ciúme que mata matou
O amigo de ala 'tá lá

'Tá lá o valete
No meio das cartas
No jogo dos búzios
'Tá lá no risco da pemba
No giro da pomba
No som do atabaque
'Tá lá
E 'tá no cigarro, no copo de cana
Na roda de samba, 'tá lá
Nos olhos da nega na faca do crime
No caco do espelho no gol do seu time
'Tá lá o amigo de ala
O amigo de ala matou
O ciúme que mata negou
A mentira da nega cantou
O remorso num canto guardou
O seu anjo-de-guarda chamou
A doideira da chama velou
No cotoco da vela penou
Nas escadas da Penha penou
No cotoco de vela velou
A doideira da chama chamou
O seu anjo-de-guarda guardou
O remorso num canto…

 

Belchior – Era uma vez um homem e seu tempo

O compositor e cantor cearense Belchior é um caso interessante nesse percurso. Também integrando a “segunda onda” da MPB – e mais especificamente, o grupo que ficou conhecido como “Pessoal do Ceará”, junto com compositores como Fagner, Ednardo e Rodger Rogério e Téti –, Belchior alcança, já em seu segundo disco, Alucinação (1976), a cifra de 500.000 cópias, se projetando para muito além do circuito relativamente restrito de circulação de grande parte dos compositores da MPB nos anos 60 e 70.

Quanto o investimento nas possibilidades abertas pela inscrição das letras nos encartes, ela pode ser mapeada desde seu primeiro álbum, Belchior (1974) – em canções como “bebelo” ou “máquina”, nas quais é facilmente reconhecida uma influência concretista – mas se torna  consideravelmente tímida ou esporádica em seus três álbuns seguintes, Alucinação (1976), Coração selvagem (1977) e Todos os sentidos (1978). Finalmente, em seu quinto disco, Era uma vez um homem e seu tempo (1979), ela aparece fortemente retomada: encontramos letras como “Retórica sentimental” ou “Comentários a respeito de John”, que apresentam elementos textuais jurídicos, trechos escritos à mão, mudanças tipográficas, e diversos elementos irredutíveis à sua versão cantada. Mas o trabalho provavelmente mais marcante está em “Brasileiramente linda”, canção que não parece “soar” concretista, mas que, transcrita no encarte, apresenta trechos cíclicos, formando um hexágono e, em seguida, um quadrilátero cortado por uma faixa, ao modelo de uma bandeira.

 

Belchior
"Brasileiramente linda"
Álbum: 
Era uma vez um homem e seu tempo
Año: 1979
Duración: 37' 56''

  

 

Actualización: 16 de junio 2021
Curaduría: Filipe Manzoni